– Eu queria começar falando que eu não sei direito por que eu fui chamado aqui. Assim, eu entendo que você é o diretor do colégio e precisa fazer isso, pelo menos pra manter as aparências, mas assim, acho que já foi longe demais essa história de me trazer pra cá… Eu não fiz nada demais. O problema foi a reação que tiveram, não o que eu de fato fiz. Isso é simplesmente absurdo! Não entendo como falar sobre tudo o que aconteceu vai ser útil pra alguma coisa, mas se você realmente faz questão que eu explique tudo… vamos lá.

Eu estava sentado na minha carteira, na hora do recreio. Era um dia completamente normal, mas estava frio demais pra ficar do lado de fora, então decidi ficar dentro da sala de aula e aproveitar um pouco do aquecimento, sabe? Foi aí que o Marcelo entrou na sala e a primeira coisa que eu consegui reparar foi na jaqueta jeans que ele tava carregando. No quão lindo era o forro meio peludinho, daqueles que esquenta bem quando bate vento de inverno. Eu conseguia quase sentir o tecido nas minhas mãos… Foi nessa hora que o Marcelo apoiou a jaqueta na cadeira e foi pegar um copo d’água ou talvez comprar um chá na cantina, afinal tava frio mesmo. Então, claro, eu me levantei.  Primeiro eu só sentei na cadeira, sentindo de leve o tecido áspero do jeans em contraste com o interior aconchegante do forro. Eu peguei com cuidado a jaqueta, senti os botões gelados e a textura deles. Marcelo entrou na sala nessa hora. Ele viu me pegando a jaqueta e mesmo assim não falou nada. Ele estava do outro lado da sala, em pé do lado da porta e não pediu pra eu parar, então eu continuei com a jaqueta na mão, entende?

Quando eu vi a etiqueta, reparei que era de uma marca que eu adoro. Era, inclusive, uma jaqueta que eu sempre quis ter. Como ele sabia que eu adorava tanto essa marca? Como ele sabia que eu sempre quis ter uma jaqueta daquele estilo, tamanho, textura, cor?! Eu pensei em todas as horas que ele passou trabalhando depois da escola pra conseguir o dinheiro e comprar aquela jaqueta.  Aí ele vai e coloca a jaqueta naquela posição  específica apoiada na cadeira, quase como se tivesse feito tudo isso só pra mim. Então, claro, eu coloquei primeiro um braço na manga. Caramba, sério! Eu senti meus pelos se despentearem por baixo e a blusa de manga comprida se desajeitou um pouco. Um arrepio percorreu a minha nuca. Eu tinha que colocar o outro braço na manga, sabe? Eu simplesmente tinha que fazer isso. Coloquei o outro braço dentro da manga da jaqueta e fiquei em pé, sentindo o calor do tecido e sorrindo sutilmente. O Marcelo ficou ali, a alguns metros de mim, me olhando. Ele simplesmente ficou ali parado, sabe? O.K., ele parecia um pouco estranho e desconfortável, mas eu senti que estava tudo bem eu usar a jaqueta, então não tirei do corpo. Ao invés disso, eu abotoei um botão. Depois abotoei outro, e mais outro e mais outro. E estava me sentindo tão satisfeito! Sabe quando você gosta tanto de uma peça de roupa que não quer nunca mais ter que tirá-la do corpo? Quer se fundir a ela, quer consumir o tecido, quer sentir a maciez dele pra sempre!

Olha, eu não fiz nada de errado não! A culpa é dele por não ter falado nada! E agora eu to sendo culpado por uma coisa que o Marcelo deixou eu fazer?! Só agora eu fico sabendo que ele veio me dedurar na direção? E só agora eu fico sabendo que to sendo acusado de furto?! Pra mim isso parece uma tentativa de chamar a atenção, cara! Eu não sou um ladrão! Se eu realmente tivesse roubado alguma coisa dele, teria que ter sido muito mais violento. Teria que ter rolado um soco ou eu teria que ter puxado a jaqueta da mão dele. Não é como se eu tivesse usado força. A jaqueta estava simplesmente ali apoiada, disponível. Por isso eu peguei! Isso é muito injusto, sério mesmo. Por que ele traria pra escola uma coisa tão bonita se ele não quisesse que eu usasse?!

Então se você vai escrever um bilhete pros meus pais ou uma advertência, sei lá, toda essa situação pode ser resumida em umas poucas frases: ‘Marcelo veio pra escola com essa jaqueta que eu queria comprar há muito tempo… O que ele achou que ia acontecer, quando decidiu fazer isso? Sabe, deixar a jaqueta ali pra todo mundo ver. É quase como se… ele merecesse isso. Quase como se a culpa fosse dele’.

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