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Planetário do Mundo

Jaqueta

– Eu queria começar falando que eu não sei direito por que eu fui chamado aqui. Assim, eu entendo que você é o diretor do colégio e precisa fazer isso, pelo menos pra manter as aparências, mas assim, acho que já foi longe demais essa história de me trazer pra cá… Eu não fiz nada demais. O problema foi a reação que tiveram, não o que eu de fato fiz. Isso é simplesmente absurdo! Não entendo como falar sobre tudo o que aconteceu vai ser útil pra alguma coisa, mas se você realmente faz questão que eu explique tudo… vamos lá.

Eu estava sentado na minha carteira, na hora do recreio. Era um dia completamente normal, mas estava frio demais pra ficar do lado de fora, então decidi ficar dentro da sala de aula e aproveitar um pouco do aquecimento, sabe? Foi aí que o Marcelo entrou na sala e a primeira coisa que eu consegui reparar foi na jaqueta jeans que ele tava carregando. No quão lindo era o forro meio peludinho, daqueles que esquenta bem quando bate vento de inverno. Eu conseguia quase sentir o tecido nas minhas mãos… Foi nessa hora que o Marcelo apoiou a jaqueta na cadeira e foi pegar um copo d’água ou talvez comprar um chá na cantina, afinal tava frio mesmo. Então, claro, eu me levantei.  Primeiro eu só sentei na cadeira, sentindo de leve o tecido áspero do jeans em contraste com o interior aconchegante do forro. Eu peguei com cuidado a jaqueta, senti os botões gelados e a textura deles. Marcelo entrou na sala nessa hora. Ele viu me pegando a jaqueta e mesmo assim não falou nada. Ele estava do outro lado da sala, em pé do lado da porta e não pediu pra eu parar, então eu continuei com a jaqueta na mão, entende?

Quando eu vi a etiqueta, reparei que era de uma marca que eu adoro. Era, inclusive, uma jaqueta que eu sempre quis ter. Como ele sabia que eu adorava tanto essa marca? Como ele sabia que eu sempre quis ter uma jaqueta daquele estilo, tamanho, textura, cor?! Eu pensei em todas as horas que ele passou trabalhando depois da escola pra conseguir o dinheiro e comprar aquela jaqueta.  Aí ele vai e coloca a jaqueta naquela posição  específica apoiada na cadeira, quase como se tivesse feito tudo isso só pra mim. Então, claro, eu coloquei primeiro um braço na manga. Caramba, sério! Eu senti meus pelos se despentearem por baixo e a blusa de manga comprida se desajeitou um pouco. Um arrepio percorreu a minha nuca. Eu tinha que colocar o outro braço na manga, sabe? Eu simplesmente tinha que fazer isso. Coloquei o outro braço dentro da manga da jaqueta e fiquei em pé, sentindo o calor do tecido e sorrindo sutilmente. O Marcelo ficou ali, a alguns metros de mim, me olhando. Ele simplesmente ficou ali parado, sabe? O.K., ele parecia um pouco estranho e desconfortável, mas eu senti que estava tudo bem eu usar a jaqueta, então não tirei do corpo. Ao invés disso, eu abotoei um botão. Depois abotoei outro, e mais outro e mais outro. E estava me sentindo tão satisfeito! Sabe quando você gosta tanto de uma peça de roupa que não quer nunca mais ter que tirá-la do corpo? Quer se fundir a ela, quer consumir o tecido, quer sentir a maciez dele pra sempre!

Olha, eu não fiz nada de errado não! A culpa é dele por não ter falado nada! E agora eu to sendo culpado por uma coisa que o Marcelo deixou eu fazer?! Só agora eu fico sabendo que ele veio me dedurar na direção? E só agora eu fico sabendo que to sendo acusado de furto?! Pra mim isso parece uma tentativa de chamar a atenção, cara! Eu não sou um ladrão! Se eu realmente tivesse roubado alguma coisa dele, teria que ter sido muito mais violento. Teria que ter rolado um soco ou eu teria que ter puxado a jaqueta da mão dele. Não é como se eu tivesse usado força. A jaqueta estava simplesmente ali apoiada, disponível. Por isso eu peguei! Isso é muito injusto, sério mesmo. Por que ele traria pra escola uma coisa tão bonita se ele não quisesse que eu usasse?!

Então se você vai escrever um bilhete pros meus pais ou uma advertência, sei lá, toda essa situação pode ser resumida em umas poucas frases: ‘Marcelo veio pra escola com essa jaqueta que eu queria comprar há muito tempo… O que ele achou que ia acontecer, quando decidiu fazer isso? Sabe, deixar a jaqueta ali pra todo mundo ver. É quase como se… ele merecesse isso. Quase como se a culpa fosse dele’.

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Uma ode para as mulheres da minha vida

Queria fazer uma ode às mulheres da minha vida, mas elas transcenderam as estrofes. Os versos ficaram pequenos para poder contê-las. 

Queria fazer uma ode para as mulheres da minha vida por que elas me ensinaram o porquê dos furacões receberem nomes de mulheres. Por que elas viram o mundo de cabeça pra baixo com suas forças: sejam elas lágrimas, voz ou silêncio. Queria fazer uma ode para as mulheres da minha vida por que suas sobrevivências são atos políticos, por que suas dores são cicatrizes na alma. Mas por que mesmo por entre essas dores, elas conseguiram ser renascimento.

Queria fazer uma ode às mulheres da minha vida por que elas me erguem se erguem erguem o mundo. E elas não são as engrenagens: elas são TAMBÉM as engrenagens. Elas são as engenheiras, as trabalhadoras nas fábricas clandestinas, o ácido do metal,  a máquina completa. Sem elas o mundo quebra: E vai quebrar – se vocês não as escutarem.

Queria fazer uma ode às mulheres da minha vida por que mesmo quando caem, fazem questão de ir embora levantando as que ficam. Por que mesmo que desapareçam, o nome delas fica. Nunca adiantou queimar os “livros proibidos”: as palavras sempre encontram seu caminho de volta até os olhos, até as bocas, até as revoluções. Elas sempre continuam a ressoar. As palavras transcendem o fogo, usam-no como arma para reinventar-se, reeditar-se. As mulheres que já foram, na verdade ainda são através de nós.

Queria fazer uma ode às mulheres da minha vida que transpiram por entre pelos, por entre peles nuas, por entre estrias, gorduras. Queria fazer uma ode às mulheres da minha vida que erraram, mas fazem de tudo para garantir que mais nenhuma erre da mesma forma. Para as mulheres que mostram que a solidão serviu para que nos procurássemos entre nós e para impedir que precisássemos nos procurar neles.

Queria fazer uma ode às mulheres da minha vida que me mostraram que lar é um lugar formado por paredes constituídas de outras mulheres. Queria fazer uma ode às mulheres da minha vida que nomearam a violência, que desenterraram do invisível, que ouviram os gritos silenciosos e me acolheram, que tornaram as minhas lutas em nossas.

Queria fazer uma ode para as mulheres da minha vida que não conseguiram entender o porquê ou pra que tanta dor ou o porquê de tanto medo, mas que mesmo assim permaneceram ou se libertaram ou fizeram chá com açúcar pra mim depois de uma noite difícil. Queria fazer uma ode para as mulheres na minha vida que são histéricas e loucas e bruxas e ‘mimimi’ e incômodo. Para as mulheres que me mostraram que todas nós já fomos tudo isso e muito mais, mas que mesmo assim, com muita luta, vivemos para contar nossas histórias. Ou as histórias das que não puderam, nem com muita luta, contá-las.

Queria fazer uma ode às mulheres da minha vida que me mostraram que precisamos disputar alguns espaços, até mesmo por que outras antes de nós foram as que tornaram essa disputa possível. Uma ode para as mulheres que se sentem encurraladas no trabalho, nas disciplinas da faculdade, na rua, em casa, no namorado.

Queria fazer uma ode para mulheres que descascam cebola, pras que usam vestido, pras que são vereadoras, pras que tem um pau, pras que são exploradas, pras que militam, pras que transam com mulheres, pras que são silenciadas, pras que são negras, índias, indianas. Por que dói saber que existiram dores antes das nossas e existirão dores depois delas. Mas por que na dor estamos juntas. Por que somos resiliência histórica, por que somos furacões, somos descolonizadas, somos soro e dororidade. Por que no amor também estamos juntas. E por que, juntas, venceremos.

Corpo-Casa

Ela me disse

“faça do seu corpo a sua casa:

só assim o desapego será possível, só assim a aceitação será real”.

 

Mas será que ela não entende

Que existe invasão de domicílio?

 

Será que ela não entende que tem vezes que a gente entrega a chave uma vez

E depois a campainha enferruja e quebra?

confundem a entrega com propriedade

a chave com permissividade

 

Como ser casa

se não existe tranquilidade no meu próprio corpo?

A claustrofobia é inevitável.

 

 

Do que adianta?

Você me diz

“Você precisa (re)aprender: o seu corpo é SEU”

Mas do que adianta aprender isso

se o resto do mundo inteiro não concorda?

 

-a dor de não poder se pertencer

Tempo Sombrio

Estamos vivendo em um tempo sombrio. Tempo esse em que, paradoxalmente, só brilha o Sol de meio-dia. Um tempo onde não existe sombra de justiça bioética. Tempo no qual, sutilmente ou não, estamos constantemente ameaçades. E agora, mais que nunca, é necessário questionar a democracia representativa. Este é o momento no qual precisamos entender que os movimentos sociais (de direitos humanos ou de direitos não-humanos) precisam de força, levantes, revoluções.

Estamos vivendo um tempo em que eu e minhas amigas fomos expulsas de um vagão do metrô – por entre gritos de “vocês votaram no Freixo” – por pedir pra um cara não acender um cigarro dentro do trem. Fomos peitadas por quatro ou cinco homens e as pessoas do vagão ainda mandaram a gente se acalmar.

Estamos vivendo um tempo em que  demonstrar afeto heterodiscordante na rua é um perigo. Um momento em que a misoginia escapa e toma a forma de letras (no melhor dos casos) com “posso participar?” ou “você é assim por que nunca ficou com um homem de verdade”. Um momento em que a misoginia e o machismo não fogem da comunidade LGBT+. Onde virou normal o cara falar “eca” pra um beijo lésbico e achar que tudo bem por que, afinal, ele é gay. Vivemos em um tempo em que o protagonismo masculino e o patriarcado tentam nos matar, nos violentar, nos calar… E falar contra tudo isso garante um crachá de “louca”, “histérica”, “mal amada”.

Estamos vivendo um tempo em que eu e minhas amigas tivemos uma conversa de alguns minutos sobre adquirir spray de pimenta. Um tempo em que “avisa quando chegar” é o mínimo para uma noite bem dormida. Por que o silêncio por trás da tela do celular pode ser um ‘acabou a bateria’, mas também pode ser um ‘não cheguei em casa’. Pode ser um ‘nunca mais vou chegar em casa’.

Estamos vivendo em um tempo onde ainda se discute validade de luta. Onde a interseccionalidade não é vista como obrigação, mas sim como uma forma de desarticulação. Estamos vivendo um momento onde nós, que temos como (já que nem todos podem ou nem todos sabem que podem), temos a obrigação de politizar nossos pratos, nossas roupas. Um momento em que precisamos aumentar as vozes daqueles que falam todos os dias. Daqueles que falam com vozes que não se encaixam no padrão humano. Vivemos um tempo onde o veganismo precisa ascender como movimento social. Um momento em que ele precisa dialogar, precisa se descolonizar para enraizar na América Latina.

Estamos vivendo em um tempo onde ser homem branco cis heterossexual e rico te dá automaticamente vantagens. Ser essa combinação de identidades parece dar direito de casar com a própria afilhada, de assediar, de se deitar com menores de idade. Parece dar o direito de justificar a morte (alguns podem até causá-la, direta ou indiretamente) de todos aqueles que morrem simplesmente por existirem fora de um “padrão”.

Estamos vivendo em um tempo que nos desgasta. Um tempo onde o Golpe se perpetua… Golpe esse com fases, como se fosse um videogame no qual nós perdemos no final. No qual a nossa derrota significa o benefício de poucos. Tempo no qual  a máxima soberania transcende um centro territorial de poder e, por isso, é capaz de nos oprimir, calar e destruir sem ser barrada por fronteiras.

Estamos vivendo em um tempo no qual precisamos ver nas pessoas, ideias e movimentos novas formas de libertação. É necessário transcender limites, sejam eles físicos ou não. Só assim conseguiremos entrar no jogo. É necessário, no entanto, fazer isso de forma nada utilitarista. Precisamos ir para além da razão – não necessariamente abdicando dela. Precisamos ser faísca para que, juntos, possamos ser fogo que queima todo e qualquer tipo de opressão.

Vivemos em um tempo sombrio onde não nos resta outra saída além de lutar. Então, lutemos!

– usando o motor que “Império” (de Negri e Hardt), “A veganism for us” (Michelle Carrera”) e “Chicas Muertas” (Selva Almada) me deram nesses tempos tão sombrios.

 

Natal feliz pra quem?

A paz que se prega para apenas alguns é na verdade uma falsa noção, é uma enganação vocabulística. A existência dessa paz seletiva ocorre como consequência da violência cometida contra outros.

A toalha de mesa branca, as velas no centro da mesa e os presentes coloridos debaixo da árvore-espécie-gringa de Natal. Risadas, reencontros, família e amigos recheando o ambiente. Vinho, espumante, cerveja. Arroz de passas, saladas, pão. Chester, peru, presunto. Bacalhau. Paladares receptivos e preparados para abrigar todo e qualquer tipo de carne. Por entre mordidas e facadas do corpo morto em exposição no centro da mesa, alguns comentários e atitudes machistas e racistas. Alguns comentários homofóbicos, outros reaças, muitos tradicionalistas. O classismo se encontra na ironia dos presentes caros ou por entre frases de um parente um pouco mais distante.

O especismo não se fala, se faz. Se veste, se come, se engole, se tempera com bastante alecrim e uma pitada de pimenta. Ele não é comentário, mas não deixa de ser uma ausência de paz. Com o cachorro de raça comprado num ‘canil certificado e super controlado‘, os paladares vão sendo estimulados. As tortas vão sendo servidas…

Ás vezes me pergunto se a cada garfada a ilusão também é alimentada. Muitos não sabem, muitos discordam, muitos não entendem e nem querem entender. A angústia precisa ser calada e os comentários precisam ser sutis. Não se pode começar uma briga bem na festa que comemora o amor, não é mesmo?

Afinal, a desconstrução só chega até certo ponto ou barreiras. E isso ocorre sob o pretexto de serem ‘escolhas pessoais’ . É uma questão de opinião que a violência, o sangue e a dor sejam comidos fritos ou assados. Empanados, embutidos. Com batatinha do lado, de preferência. E a escolha é um substantivo exclusivamente aplicado aos humanos.

É, o Natal só pode ser feliz para alguns. Não haverá paz enquanto houver violência bioética. Só ressoará a opressão.

 

 

Eu acordei triste e não sei por que

[trigger warning/gatilho – violência contra mulher, violência sexual]

Eu acordei triste e não sei por que. Mas logo pensei “calma, já chega quinta, tem terapia”. Só mais três dias fingindo não saber o porquê deu estar triste. Só mais três dias blefando num pôquer comigo mesma, fingindo não lembrar que ele me estuprou ou que ele segurou meu pescoço ou que ele ia se matar ou que ele ia me matar ou que… É, só mais três dias.

Levantei e fui fazer o café. Liguei a máquina que logo começou a espalhar um cheiro amargo e doce pela casa. Cheiro que penetrou minhas narinas, que me encheu por dentro. Lembrei do beijo dele, beijo com cheiro de café misturado com loção pós-barba da Granado. Lembrei dos lábios dele nos meus, imprimindo um amor intenso que arde e queima. Não pude deixar de sentir saudade. Pensei na terapia. Só mais três dias para não falar dessa saudade na sessão. Pra não falar dessa saudade do gosto dele, do cheiro dele, do jeito que ele coça a nuca antes de falar. Mais três dias pra não falar dessa saudade, por que falar dessa saudade só vai dar luz a um diagnóstico tenebroso. “Suicida”. Por que voltar pra ele ou querer fazê-lo é classificado como atividade de mesmo risco que me atirar da janela do oitavo andar.  “Mas ela não entende que foi amor”, pensei. Ela não entende que a saudade é o que restou pra fazer o cinza permanecer, pra expulsar o branco ou preto, pra expulsar a certeza. A saudade permaneceu para permitir o incerto, pra permitir o limite entre estupro e consentimento, pra permitir a neblina. Lembrei do casal que morreu semana passada num acidente de carro na estrada Rio-Petrópolis. Imaginei o para-brisa frenético riscando o vidro por causa da borracha gastada. Imaginei o cheiro do carro novo, o banco de couro preto. Imaginei ela repousando no ombro dele enquanto ele ia a 90 km/h na estrada invadida pela neblina. Imaginei o carro  quase mergulhando numa incerteza. “A incerteza também mata”, percebi. Sacudi a cabeça, já eram 9h da manhã. “Quanto pensamento macabro antes do trabalho”. Mas tudo bem, só mais três dias pra terapia.

No trabalho, o Márcio era um gatilho. O grampeador, o jeito com o qual o menino da cantina tocou na minha mão ao me entregar o café. A luz fluorescente, a voz alta da colega no cubículo do lado. Acabei encarando o relógio, sendo refém dos ponteiros que tinham as pontas afiadas como facas. Ou como unhas ou como dentes ou como intenções. Escrevi um relatório enquanto o suor escorria pela minha testa. “Só mais três dias”, pensei. No intervalo eu liguei o celular e respondi algumas mensagens. Um amigo meu tinha se sentido ofendido na faculdade quando uma colega generalizou os homens. Será que ele não entendeu que particularizar é uma arma sem trava de segurança? Que confiar na exceção tem muito mais chance de machucar? Pensei em dizer pra ele: “Claro que nem todos os motoristas ignoram as placas de “PARE”, mas nem por isso você deixa de olhar pros dois lados antes de atravessar num cruzamento, não é mesmo?”. Mas decidi ficar quieta e fumar um cigarro.  O sol fez meus olhos arderem. Fiquei em silencio e guardei o celular.

Quando cheguei em casa tirei os sapatos. Me olhei no espelho e vi ele estampado debaixo dos meus olhos. Vi ele pintando roxo, talhando as rotas pra escoar as lágrimas. Fechei os olhos e segurei a dor: só mais três dias. Deitei na cama ainda restrita ao lado esquerdo. Mesmo longe, ele ainda me prende num canto, ainda me algema às lembranças que são âncoras do barco rumo ao futuro ou superação. Contornei a palavra escrita na parede ao lado da cama, reescrevi letra por letra com a ponta dos dedos: resiliência. “Propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.”. Quão limitada é a linguagem em explicar como ainda estou viva. Não retornei a minha forma original, não sou elástica. Só mais três dias para ouvir que carregarei ele pra sempre comigo. Só mais três dias pra ouvir que provavelmente meu corpo nunca se esqueça de como ele invadiu meu domicílio-corporal. Só mais três dias para voltar pra casa, só mais três dias pra deitar no lado esquerdo da cama e limpar as lágrimas secas do rosto. Só mais três dias pra dormir e acordar triste de novo, no dia seguinte, ainda sem saber o porquê.

A militância também dói

Logo ao entrar no Palácio Tiradentes, não pude deixar de sentir um frio percorrendo minha barriga e atingindo todas as minhas extremidades. Dei meu documento na porta, como fui instruída a fazer, e fiquei na dúvida de em que lista anotariam meu nome. Se na de presença ou se na de presa que caiu na armadilha. Peguei o documento de volta e subi, devagar, tentando me convencer de que dentro da sala 311 o clima não ia ser tão pesado. Me enganei.

Chegando na sala, meus olhos repousaram sobre um homem usando um chapéu de caubói. Sim, chapéu de caubói. Pensei na “Política Sexual da Carne”, mas logo segurei meus pensamentos, afinal “aqui preciso ter cuidado com o que digo”. Fiquei fissurada olhando aquele recado na forma de objeto. Objeto que estava ali adornando uma cabeça, que estava ali gritando por entre cabeças de cabelos expostos… Sentei e tentei desviar o olhar. Quando levantei novamente o rosto, vi ali, na minha frente, aqueles que estariam falando contra nós ou por cima da gente (mas nunca para ou por nós): homens brancos, heterossexuais, latifundiários, a bancada ruralista evangélica, pecuaristas, machos-rei do Palácio Tiradentes. Um conjunto de empresários capitalistas, de pastas de couro trançado, ternos e gravatas. Por entre eles, uma mulher sentada em sua respectiva cadeira sem interagir muito com o que estava se passando no seu entorno.

Quem pensou que o coronelismo e machismo não existem mais, pensou errado. Estávamos ali numa dicotomia clara: mulheres de um lado, homens do outro. E isso só era a diferença mais clara.  Estavam em volta da mesa os coronéis, uma elite fazendo lobby, os caubóis controlando a fala, o espaço, o microfone, o poder econômico e social. E eles todos até murmuravam alto, como se as vozes masculinas precisassem ser ouvidas a todo custo e a todo o momento. Os meus ossículos do ouvido vibravam contra a própria vontade diante dessas vozes que ameaçavam sozinhas tanto quanto associadas aos seus portadores.

Encaradas de cima a baixo, fitadas, intimidadas à distância – coisa que parece pouco violenta, mas não o é –,  permanecemos sentadas diante desse público. E aos que acreditam que se tratava de um debate justo, com espaço equitativo, eu digo: como pode ser justo e equitativo um ambiente predominado por esses tais homens? Que poder de fala tenho eu, diante deles? Como pode se falar de justiça quando tal dicotomia e demonstrações de poder estavam ali, descaradas acenando e rindo da gente?

No decorrer da audiência não se falou sobre o que é cultura e até que ponto ela pode ser justificativa. Não se falou sobre o que é ética animal ou sobre a necessidade de que as leis acompanhem os questionamentos e reflexões trazidos por essa área do conhecimento. Foram laudos atrás de laudos. Como se laudos não pudessem ser controlados, como se não fossem tendenciosos. Como se essas atividades “que movem tanto dinheiro” (e isso eles fizeram questão de falar, várias vezes) não fossem poderosas a ponto de manipular informações, intimidar ou fazer sofrer.  Alternavam o discurso “obrigada pela presença de todos, precisamos dialogar” com batidas na mesa, com aumento do tom de voz. Com a utilização de argumentos baixos, fotos tendenciosas e palavras-máscara para esconder a verdade que eles tentavam nos fazer engolir. Da mesma forma que eles fazem os bois engolirem bastante comida antes de irem pra arena e depois pro abate.

Quando foi para o centro da sala um homem carregando consigo uma espora, não pude controlar o meu estômago e coração, que reclamaram diante do absurdo pelo qual eu os fazia passar. E como se não fosse suficiente toda essa imagem, ele pediu para falar sem microfone. Pediu para deixar a voz grossa dele tomar conta de um ambiente igual um fantasma assombra uma casa. Pegou o microfone por obrigação e, nessa hora, eu agradeci mentalmente o fato de que o microfone não era vivo pra sentir aquelas mãos sobre ele. Tentou desqualificar, calou e intimidou uma mulher veterinária e militante que estava sentada logo na minha frente. Bateu na mesa, levantou a voz. Foi machista e elitista, usando palavras que eram quase como flechas rumo a um alvo. Ela teve que se retirar diante dessa violência. Os caubóis ficaram em silêncio. A audiência continuou.

Ficamos ali sendo vítimas de violência: uma, duas, três, mil vezes. Arrancaram nossos cartazes das paredes logo após terem nos concedido a permissão de colá-los. Nos encararam, bateram palmas para falas inadmissíveis. Reclamaram quando gritamos contra o machismo, fascismo, elitismo. Nos pediram silêncio quando respondemos perguntas, quando nos manifestamos. Os deputados fizeram campanha política enquanto estávamos ali, estupefatas, diante de tudo o que havia acontecido. A ALERJ não é e nunca foi um espaço seguro para as minorias.

A mulher sentada ao lado desses homens-coronéis, não falou. E eu só percebi isso quando, no caminho da saída, uma amiga minha comentou. A angústia se apoderou de mim mais uma vez.

Quando saímos da sala, ainda segurando o casaco, ainda com frio interno causado pela raiva e insatisfação, ouvimos um ‘psiu’ por parte de alguns que esperaram na porta. Como se não fosse suficiente tudo o que tivemos que ouvir lá dentro, fizeram questão de nos relembrar que, do lado de fora, nós ainda podemos ser vítimas cotidianas desse machismo que nos mata todos os dias.

No Dia Mundial do Veganismo, confirmo a interseccionalidade do veganismo que eu visto. Confirmo que luto contra todos os tipos de opressão. Me cegar para alguma delas seria limitar conscientemente minha visão de mundo e tentar afirmar que as causas não se relacionam, que não são interconectadas. Confirmo que meu veganismo é luta, não é só post no facebook e brownie vegano com calda de chocolate. Meu veganismo é libertação animal, é combate, é abolicionismo. E ele chora diante desses absurdos. Mas a luta continua e precisamos fazer parte dela, mesmo que a militância as vezes nos sufoque. Sim, a militância também dói.

Por isso, hoje, levanto meu copo para brindar pela única saída, pela única forma de um veganismo possível. Brindo hoje, à revolução!

 

 

Um fantasma que me assombra

O fantasma do Carnismo me deixa acordada noites e mais noites. Ele está em todos os lugares, invisível, esperando só alguém puxar um garfo ou calçar uma bota para se manifestar. Ele assombra muito, ele é assustador de verdade. Na sua própria presença invisível ele só se materializa pra pouca gente. Ele tenta fazer todo mundo acreditar que ele não existe e esse boato nunca espalhado- mas inato- se prende ao motorista do ônibus, à moça que é caixa do banco, à professora de Bioquímica ou talvez até mesmo se prenda à sua mãe ou seu pai.

Como se combate algo invisível? O fantasma do Carnismo sussurra no ouvido das pessoas. Mas as pessoas nem percebem que estão ouvindo. É como se desde o útero de onde viemos ele estivesse sussurrando, até que esses murmúrios se tornassem parte da gente. Não estranhamos mais essas informações, esses atos.  Aceitamos e reproduzimos sem nem saber que é uma reprodução. Sem perceber que somos programados, fomos programados, somos os próprios programas.

Natural, é natural. Dilacerar, matar, enclausurar, escravizar. Natural é o primo do Carnismo que vem visitar de vez em quando. E o Natural muda de forma várias vezes. Ele é assustador, temeroso e ameaçador quando vê uma mulher amamentando em público, mas muito de boa quando senta pra comer uma feijoada no sábado. Ele é muito mal humorado quando se trata de topless, mas muito gente boa quando se trata da bolsa de couro da Chanel.  Muito instável e frágil é esse Natural, e nessa inconstância ele acaba sendo perigoso.

Normal, é normal. Quando normalidade nada mais é que construção social, que relatividade, relativismo, que um depender do referencial. Normal para mim é tentar construir uma vida ética, estar disposta a ouvir as vozes daqueles que não usam palavras, mas gritam todos os dias. Todos. Os. Dias. Normalidade não é a maioria, normalidade é ouvir a minoria. E as vezes o Normal dói, muito. Dói pensar que esse fantasma é normal, que rabada é normal, que leite ninho é saudável, que gelatina é normal. Como pode pele, ossos e tecido conjuntivo serem normais só por que estão na forma de um chiclete?

Necessário, é necessário. E não estou falando da música do Mogli. Estou falando que necessário lava o cérebro e esquece ele pendurado no varal.  Necessário me transforma em milagre, em prova viva? Ou necessário tem medo da minha existência? Necessário tenta combater a verdade, mas necessário é tão insuficiente. Por ser ubíquo ele trava uma batalha falaciosa. E o sistema cria as falácias para nos vender as histórias que a maioria está a fim de ouvir. Necessário se ameaça com a proteína de soja, de ervilha, com o aminoácido dos brócolis ou com a vitamina B12 encapsulada. Ele é uma ideia que nos vendem para nos impedir de acordar.

Mas é TÃO bom. Bom mesmo. Como se bom fosse a papila gustativa ou encher a cara com picanha no rodízio. Como se bom não fosse justiça. Bom é uma escolha na qual o egocentrismo e antropocentrismo/especismo prevalecem. Ele é a justificativa dos que já enxergaram o fantasma, mas escolhem incorporá-lo e deixá-lo viver nas suas entranhas e coração. Bom nem chega a ser argumento, bom é simplesmente mais uma chance do “eu” prevalecer sobre o “eles” ou “nós”. Bom deveria ser construir um mundo mais positivo. Construir um mundo combativo em sua essência, inimigo da opressão. Mas bacon é tão bom, não é mesmo?

O fantasma do Carnismo me persegue: se materializa na propaganda muda, na atitude cega, no comentário furtivo. Ele tenta me prender, me desestimular. Mas o Carnismo que se cuide, por que o Veganismo existe e sua visibilidade não o barra. Sua visibilidade incomoda e desestrutura as assombrações. Sua visibilidade é revolução.

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